A Polícia Civil encontrou cartas com mensagens em código, transferências bancárias e fotos de grandes quantias em dinheiro e peças de ouro na nuvem da missionária Rhavenna Barcelos Cabeça de Almeida, presa na Operação Fariseus, em Cuiabá.
O material, segundo o inquérito, reforça a suspeita de que ela e pessoas de seu núcleo familiar eram utilizadas para receber, guardar e movimentar valores e objetos de integrantes de uma facção criminosa.
De acordo com a investigação, as cartas eram destinadas a “Piu” ou “Pio”, apelido atribuído a Rhavenna, e traziam reiteradamente o número de telefone usado por ela, além de referências a familiares.
Em uma correspondência datada de 30 de junho de 2026, um preso identificado como Julio afirmou que um homem que lhe devia iria levar “um relógio e um PEN DRIVE” e pediu: “VC guarda. Por favor. Mim ajuda aí”. Na sequência, diz: “Vem aqui busca seu Presente”.
Segundo a Polícia Civil, o conteúdo indica que Rhavenna era acionada para receber e guardar objetos relacionados a presos e ainda poderia receber presentes pelo auxílio.
Em outra carta, Junior da Silva escreveu para “minha irmã querida Pio” e pediu que a mãe fosse avisada sobre dois Pix, de R$ 400 e R$ 150, que seriam enviados para ela guardar.
Na mesma correspondência, Junior mencionou que havia deixado “um relógio e uma bíblia” com Rhavenna e pediu que os objetos fossem levados até ele. Ao final, afirmou que iria “dar uma bença” para ela.
Outro preso, identificado como Escobar, também escreve para “minha irmã querida Piu” e pediu que a mãe pegasse seu dinheiro e comprasse um relógio para ele. O objeto deveria ser enviado por um dos integrantes do grupo até a unidade prisional. Na mesma carta, ele afirmou ter feito “presente” para Rhavenna, para a mãe, o pai e outros familiares.

Segundo o inquérito, isoladamente, não é possível afirmar que as palavras “relógio” e “bíblia”, por exemplo, sejam códigos, mas isso chamou a atenção dos investigadores.
“Embora o conteúdo, isoladamente, não permita afirmar que se trate de linguagem codificada, a repetição desses mesmos objetos em solicitações envolvendo diferentes internos recomenda sua correlação com os diálogos, apreensões e demais comunicações analisadas, sobretudo diante do padrão já identificado de utilização das integrantes do projeto “Resgatando Vidas” para levar, buscar, guardar ou intermediar bens e valores”, diz trecho do inquérito.
Pix na conta
Além das cartas, a Polícia Civil encontrou comprovantes de transferências bancárias que, seriam compatíveis com a dinâmica de recebimento, guarda e redirecionamento de dinheiro identificada na investigação.
Um dos registros aponta o envio de R$ 7 mil para Rhavenna, em dezembro de 2025. Conforme o documento, a orientação era para que R$ 5 mil fossem repassados via Pix para uma terceira pessoa, enquanto R$ 2 mil permaneceriam com a missionária.

Também foram identificadas transferências feitas pela própria Rhavenna. Em 10 de fevereiro de 2026, ela enviou R$ 5 mil para a mãe, Orminda de Almeida. Em maio, transferiu R$ 800 para a irmã, identificada como Lolo. Para a Polícia Civil, os valores apontam para circulação e fracionamento de dinheiro dentro do núcleo familiar.
Outros três Pix foram feitos por Rhavenna para Dalva Alves Silva, uma idosa de 70 anos, aposentada. Foram R$ 8 mil em 2 de abril de 2026, R$ 5 mil no dia seguinte e R$ 3.050 em 30 de dezembro de 2025, totalizando R$ 16.050.
Segundo o inquérito, Dalva não teria vínculo aparente com Rhavenna. Os investigadores, porém, identificaram que ela é mãe de Poliana Rodrigues da Silva, apontada no documento como pessoa com quatro registros de prisão relacionados principalmente a tráfico e associação para o tráfico de drogas.
A chave Pix utilizada para o recebimento dos valores estava cadastrada em nome de Dalva, mas correspondia a um número de telefone registrado no cadastro de Poliana.
Em outro registro, Rhavenna transferiu R$ 3.300 para Ronison A. Lopes, que, segundo o inquérito, já foi preso duas vezes e possui antecedentes por crimes relacionados a drogas e roubos.

Dinheiro e ouro
Na nuvem de Rhavenna também foram localizadas fotografias e vídeos que mostram grandes quantias de dinheiro em espécie e peças de ouro. Em alguns registros, os investigadores identificaram a mão da missionária usando anéis de ouro.
Também aparece um cordão com a inscrição “Unidos VG Chapadão”, equipe de futebol que, segundo a investigação, já foi relacionada ao círculo de Renildo da Silva Rios, conhecido como “Chapa” ou “Velhote” e apontado como uma das lideranças da facção criminosa investigada, com quem Rhavenna manteve um relacionamento amoroso.
A Polícia Civil afirmou que não é possível atribuir, isoladamente, a Rhavenna a propriedade de todo o dinheiro e dos bens registrados nas imagens. Entretanto, o armazenamento reiterado desse material em sua nuvem, somado às cartas, transferências e demais elementos reunidos no inquérito, reforça a suspeita de que ela estivesse inserida em uma dinâmica de “guarda, circulação e ostentação de valores e bens relacionados ao núcleo faccionado investigado”, diz trecho do documento.
A Operação Fariseus foi deflagrada em julho deste ano para investigar a suspeita de que integrantes da família de Rhavenna utilizavam o projeto religioso “Resgatando Vidas” para prestar apoio logístico, financeiro e de comunicação a integrantes da facção. Além dela, os pais da missionária, os pastores Nivaldo de Almeida e Orminda de Almeida, foram alvos da operação.
Os investigados são suspeitos de envolvimento nos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Fonte: Mídia News
































